19 Jun COMO E PORQUE ME TORNEI RACIONALISTA – 2ª PARTE
Etelvina dos Santos Pinto
Que demonstrava isso? Respeito pelo que ele ainda não conhecia, nunca contrariou a minha vontade, respeitando sempre minhas convicções. Começava eu, então a sentir que poderia ser ele o sustentáculo da Doutrina no Pará. Mas sabia que para isso acontecer necessário seria que ele despertasse, que sentisse interesse pela Doutrina. Os predicados necessários ele tinha, pois sempre foi homem de caráter, honrado e cumpridor de seus deveres quer como esposo, quer como pai, quer como irmão e ótimo chefe de família.
Eu estava realmente convicta que Jacob tinha todos os predicados para encetar a luta que deveria surgir nesta Amazônia querida e que seria ele o escolhido. Por isso nunca perdi a esperança de o ver despertar.
E eis que surge minha alegria, quando um dia ele me disse: Etelvina sinto vontade imensa de escrever uma carta para o Presidente dessa Doutrina que abraçastes. Não sei porque, mas sinto cada vez mais esse desejo, devo faze-lo, mana? E eu radiante de alegria, respondi: Sim Jacob, deves dar expansão à tua alma, já que sentes essa vontade.
Não tardou que ele escrevesse, sem antes rabiscar inúmeras cartas que não chegava a terminar porque ainda não assimilava o seu desejo. Rasgava-as e ficava como que aborrecido. Dizia então “Não escrevo mais”. Eu sabia de onde tudo aquilo partia e por isso o não contrariava, limitando-me a dizer-lhe: tem calma e verás que lançara no papel o que sentes. ”
Um dia pediu-me que lhe fizesse uma cópia, dizendo que assim conseguiria escrever. Não querendo contrariá-lo, fiz-lhe a vontade. Escrevi, mas sabia de então que ele escreveria diferente porque é desses que só diz o que sente e só pergunta sobre o que deseja saber.
Sobretudo, eu sabia que força superior o incentiva. E assim aconteceu, meus amigos. Ele desejava conhecer a verdade sem mistificações porque era chegado o momento do seu espírito despertar.
Assim meu irmão satisfez a vontade, que era nortear e firmar as normas de um outro viver para caminhar para o verdadeiro triunfo, a suprema vitória, que é o esclarecimento.
No caminho da espiritualidade, deu ele o primeiro passo atendendo aos apelos de sua alma, e com isto tive eu grande alegria, por vê-lo começar a trilhar a caminho para chegar à verdade, atendendo assim aos ditames do seu próprio espírito, pois a voz da consciência reflete-se sempre através de orientação superior quando ela é sentida como o foi ele.
Jacob dos Santos Pinto começou a aproveitar o tempo, confirmando a previsão de que estava predestinado a arcar com esta grande responsabilidade espiritual. E por isso, apesar de outros entraves, ai esta ele atento sempre para levar avante o que os mestres lhe confiaram.
Quantas criaturas neste mundo de sofrimentos arruinaram a sua carreira indo atrás de ilusões, sem pensar, sem raciocinar, mas deixando-se atrair por enganosas miragens. Mas quando tem a ventura de encontrar a verdade, começam a compreender que o ser encarna com o propósito de não se deixar entregar às ilusões às manifestações mundanas. Sabem que vem lutar e vencer na vida.
Meus companheiros. Eu sonhava de olhos abertos, alma lúcida para não ilusões e nem me deixar abater, para que pudesse levar avante a missão que abracei, desejando encaminhar aquele a quem estimava e estimo como um pai, para elevados planos e então, unidos, podermos sentir o mesmo ideal, despertá-lo para a mesma realidade que eu estava sentido através do esclarecimento que recebia a acumular cabedal no campo da espiritualidade. Sei que ele poderia consolidar o patrimônio moral e enriquecer-se de conhecimentos sábios e úteis, conquistando méritos para a promoção a planos superiores nesta jornada Racionalista.
Com as cartas que constantemente recebia do Sr. Antônio Nascimento Cottas, pôde ele começar a reeducar seu espírito, culminando posteriormente com a leitura de obras maravilhosas, notadamente aquelas que nos deixou o inolvidável Luiz de Mattos.
Desses momentos em diante, não tive mais dúvidas. Meu espírito sentia que Jacob, meu dedicado irmão, começa a compreender a vida de uma outra forma. Incapaz de cometer atos de levianamente, até então era ele um ótimo esposo, pai amantíssimo e abnegado irmão, muito amigo dos todos.
Daí por diante, começamos a caminhar unidos os caminhos da espiritualidade, fortalecendo os dois, ele e eu, a estrutura espiritual por atos de valor e moral, conquistando, assim passo a passo a felicidade real.
É conveniente lembrar-vos a todos que ouvem que a Doutrina me deu vida, valor para a luta e preparou-me para saber enfrentar e sair-me bem dessa luta.
E esse cabedal ela dará a todos os que a ela queiram-se dedicar, submetendo-se aos princípios. E os sentirão redobrados principalmente nos momentos mais críticos da vida, quando diante de fortes reveses, contrariedade e sofrimentos. Nestes momentos é que seu valor se faz sentir com mais intensidade, como aconteceu a esta que vos fala, no decorrer da vida que teve que encetar. Teria eu então de resolver meus problemas da melhor maneira possível, com aquela isenção de ânimo, com aquele valor, com aquela coragem que caracteriza o espírito verdadeiramente esclarecido.
Agora continuarei a vos divulgar os conhecimentos que culminaram com o despontar da doutrina em Belém, embora não o faça da forma que deveria ser feita, porque muito me anima o desejo-o de mostrar-vos que não foi fácil. Hoje, tudo se tem no prato, e a única coisa que está faltando é o desejo de saborear este salutar manjar espiritual.
O que mais almejava desde que conheci a doutrina, estava acontecendo: era o ver meu irmão despertar, pois a ele seria entregue a incumbência de ser o correspondente do Racionalismo Cristão, como posteriormente seria designado para levar avante o fundar no Pará um filiado da Doutrina. Assim começamos juntos a sentir o mesmo ideal e eu mais animada por que já éramos dois a lutar pela mesma causa.
Com a correspondência que começa a ter com o mestre na terra, Sr. Antônio do Nascimento Cottas, ele se animou e entrou na luta, que foi grande. Sinto que poderia descrever tudo como desejava fazer, pois me encontro bastante combalida. Mas dentro do possível eu o farei, pois sempre foi meu desejo deixar escrito em simples palavras, mais ou menos, os conhecimentos relativos ao início da Doutrina Racionalista em Belém. Sabereis, todavia, mais ainda: isto é, “porque como me tornei Racionalista”, assim como este que é hoje o Presidente a quem nada tem feito recuar na luta que encetou, a quem nem a família nem bens materiais o fizeram esmorecer. Assim eu a via e o vejo sempre forte.
Tivemos lutas, muitas lutas, possivelmente contra os hipócritas que se afastavam como rótulo de Racionalista.
Lutas, sim repito eu, porque quem conhece esta Doutrina, que é a Doutrina de Cristo, que depois Luiz de Mattos e Luiz Thomas tão bem souberam compreender e respeitar legando-nos esta joia e que continuam a nos dizer que a evolução do espirito se faz neste mundo pelo sofrimento advindo da luta pela vida, sabe que assim é. E voz que estais ouvindo estas simples palavras, mas sinceras, podereis avaliar o que nós dois passamos para alcançar e meta que aceitamos espontaneamente.
Esclarecidos que éramos, jamais poderíamos compactuar com os vaidosos intrujões que apareciam para nos confundir com eles. O Racionalismo Cristão traça seu ponto certo na vida e seu ponto de vista é cheio de convicção, que lhe advém da verdade. Dela não se afasta jamais. Foi o que fizemos. Tivemos dificuldade e muitas mesmos, para podermos encontrar criaturas que desejassem estudar a Doutrina e compartilharem juntos neste ideal. Custou mas surgiu. Os que nos procuravam vinham impregnados do fanatismo e ideias derivadas das seitas mentirosas. Do espiritismo não tinham nada.
Nossa luta então dobrava. Tudo aparecia para que desanimássemos na marcha já iniciada. Mas cousa alguma pode influir para que recuássemos. Nosso correspondente já estava ficando em Belém, isto foi o principal. Sim, porque estava lançada a semente da verdade e esta tinha o amparo deste baluarte que ai está, que aceitou com tal firmeza, que nada o fez nem fará recuar.
Eu era apenas seu encosto e alegro-me por isto.
Agora vou citar uma das passagens importantes na nossa luta contra os hipócritas e mentirosos, que surgiram de repente, querendo nos impingir que eram racionalistas cristãos.
Nela tem saliência uma criatura já desencarnada e que alguns presentes conheceram. Trata-se do Senhor Valdemar de Oliveira, que já tinha procurado através do Jornal “Folha do Norte”, em virtude de ter sido informado pelo Sr. Antônio Cottas da existência em Belém, de pessoas conhecedora do Racionalismo Cristão, tendo sido indicada ao Sr. Valdemar de Oliveira minha pessoa. Mais precisamente, conforme ele mesmo me contara, da Casa Chefe lhe mandara dizer o Presidente Antônio Cottas, em resposta a sua consulta: “Procure D. Etelvina dos Santos Pinto na Av. Tito Franco”. Embora tenha sido citado o nome da rua foi omitido, por engano, conforme ele mesmo me informou.
Valdemar de Oliveira disse-me que havia procurado mas que ninguém lhe soube informar sobre minha pessoa. De forma que já passado algum tempo, resolveu ele fazer outra publicação no jornal desta feita convocando todos os racionalistas cristãos do Pará para uma reunião, para tratarmos de assuntos doutrinários (como se os conhecessem). Tal reunião estava marcada para realizar-se na Rua Rui Barbosa na casa de um Sr. Passos e sua irmã.
Pelo jornal, tivemos notícias desta reunião e ficamos alegres pensando que era de fato mais companheiros que se iriam unir à nos. A ela comparecemos sem perda de tempo.
Era domingo não me lembro a data. Chegamos no endereço indicado no anúncio e nos apresentamos como estudiosos do Racionalismo Cristão. Foi então que vim a conhecer o Sr. Valdemar de Oliveira.
Foi nessa ocasião que ele me informou já ter me procurado a tempos, mas não conseguira encontrar-me. Apresentou-nos a mim e meu irmão, ao dono da casa, que era um tal Senhor de quem guardávamos o sobrenome Passos e sua irmã.
Do Sr. Passos sabemos já ter ele e sua irmã feito parte das correntes no Rio de Janeiro. Já conhecem bem a Doutrina? Quiséramos saber. “sim’ foi a resposta. Tristeza para nossa almas, era tudo mistificação e vaidade. Sim, porque ficou deliberado serem feitas as limpezas psíquicas às segundas, quartas e sextas–feiras, em sua residência. Já no decorrer da reunião nós tivemos que combater certas coisas que não se enquadravam dentro de nossos princípios. Mas na ânsia de nos unirmos, resolvemos continuar na luta. Então passou este cidadão Passos a presidir as sessões de limpeza psíquica e sua irmã a ocupar a segunda cabeceira.
Infelizmente não podemos continuar juntos, pois começamos a notar e compreender logo que a disciplina não era a recomendada pela Doutrina. Por sorte, foi ventilada a possibilidade de as sessões virem a ser presididas pelo já então correspondente em Belém Jacob dos Santos Pinto, sugestão feita por cidadão da Marinha, Sr. Domingos chamava-se ele, que se dizia conhecedor da doutrina, pois já tínhamos assistido a uma ou mais sessões na Casa Chefe.
Como o Sr. Passos, todavia, Sr. Domingos era outro intruso, pois viemos mais tarde a saber de sua péssima conduta, o que achamos desnecessário descrever. Então esse Sr. Passos que era o dono da casa, logo deixou de presidir. E não era possível mesmo ele continuar, pois se notava claramente sua falta de conhecimentos. E nós, que já estudávamos com todo carinho a Doutrina, estávamos dispostos a desistir se ele continuasse naquela indisciplina, como Presidente.
Para comprovarmos o grau de mistificadores que eles eram basta dizer a todos que tendes a alegria de ouvir estas palavras, que um dia chegamos em sua casa na hora regulamentar a determinada para início da limpeza psíquica, e encontramos a sala deserta. Sim porque os componentes desse lar que dizia racionalista, não apareceram porque se melindraram e somente o fizeram no fim da sessão, assim mesmo somente para dizerem-nos que consentiriam dali para diante que continuássemos lá em sua casa, nas sessões de limpeza psíquica, com a condição de concordamos que ele presidisse.
Avaliem amigos, o estado em que se encontrava a alma desse que assim se expressou. Via-se que noção nenhuma tinha do que era o Racionalismo Cristão, e com ele, sua irmã. O que desejavam era fazer obra sua pensando que sua mistificação não seria compreendida por nós, pois nossa finalidade era bem outra diferente da deles. Dali saímos com a primeira decepção e tristes por termos visto tanto baixaria espiritual entre aqueles que se diziam já ter frequentado a Casa Chefe.
Mas como aqueles que estudam esta Doutrina com carinho não se podem iludir, nós desistimos daquele ambiente que de espiritualidade nada tinha, e viemos para a casa de um irmão nosso, que ofereceu a sala de sua residência até que pudéssemos arrumar uma em definitivo, o que ocorreu dois meses depois, quando nos localizamos na Generalíssimo Deodoro nº 123. Até que meu irmão Jacob que residia no Souza Bar, seu comercio e ao mesmo tempo residência da família, resolveu arrumar com grande sacrifício uma casa, onde passei a morar juntamente com ele e sua família, constituída de esposa e filhos, naquela época estudando regime de internato.
Continua na próxima semana.
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