26 Jun COMO E PORQUE ME TORNEI RACIONALISTA – 3ª PARTE
Etelvina dos Santos Pinto
Com estes dois sobrinhos e mais uma empregada que admitiu Jacob, passamos a residir na Alcindo Cancela nº 208, onde passaram a se efetuar as sessões de Limpeza Psíquica, para cuja realização Jacob e sua esposa tinham que se deslocar todas as tardes próprias do regulamento de sua casa de comércio no Souza Bar, com grandes sacrifícios para os dois.
Apesar das dificuldades sentimo-nos mais tranquilos pois o ambiente era outro, mais ameno e Racionalista.
Foi assim que se passaram muitos anos, todos de luta, sofrimentos, mas também de satisfações pela causa que abraçamos. Também na Alcindo Cancela, que fica bem perto daqui onde se instalou definitivamente o Filiado do Belém, apareceram diversas criaturas rotuladas como racionalistas, dizendo que também praticavam sessões racionalistas.
Dentre estes, destacou-se um certo cidadão, que nos foi apresentado por criaturas fanatizadas por ele, que lhe devia falar ao paladar, com mesuras e repetindo o chavão de que o sofrimento de todos era provação, etc… Era o Salvador. Veio ele ao nosso correspondente acompanhado de sua comitiva e quis empolgar-nos dizendo-se presidente e que seu guia era São Jorge.
Mas como um racionalista não deixa passar nada que não esteja enquadrado dentro da Verdade, foi logo combatido e desmentido, patenteando-se que ele jamais conhecia o que era a Doutrina de Cristo e não podia, em nome de uma bela ciência, impingir alhos por bugalhos. E que nós não aceitaríamos sua teoria mistificadora e outras coisas mais que o contrariavam por não compactuarmos com as mentiras dele e seus asseclas.
Esta foi a segunda decepção, amigos.
Meu irmão Jacob, todavia, continuava em sua missão de correspondente, trocando missivas periódicas com a Casa Chefe e o Presidente Perpétuo da Doutrina e recebendo, assim cada vez mais luzes. E cada vez melhor orientados, marchávamos para a frente, sempre na luta para que viesse a fundar-se em Belém um Filiado condigno, como de fato aconteceu anos depois.
Vendo eu o Doutrina já amparada pelo esteio forte e já designado e autorizado pelo Astral Superior, e desse esteio fui eu a interprete direta como já expliquei, pensei então construir meu lar como mulher, complementar o cumprimento de meus deveres na Terra. Sei que a mulher, entre todos os deveres, traz a grande missão de ser esposa valorosa e mãe orientadora das almas que venham a encarnar, e foi com proposito que constitui meu lar.
Dirão que isto não deveria vir ao caso. Mas eu explico: só uma alma esclarecida pensa em cumprir todos os deveres para as quais encarnou. Eu julgava, já tendo a doutrina o seu esteio forte no Pará como o desejei sempre, nada me impediria de casar e continuar a ajudar o meu irmão e levar avante o nosso ideal. Tudo fiz bem-intencionada e já com 27 anos. Procurei comunicar a meu irmão a minha nova resolução, dizendo-lhe que a pessoa que eu escolhera iria até ele pedir-lhe consentimento. Meu irmão discordou, mas eu também não voltei atrás e disse-lhe que já havia dado minha palavra àquele que deveria ser meu esposo.
Meu irmão Jacob viu, assim a necessidade de concordar mesmo porque não deveria intervir no meu livre arbítrio, principalmente porque eu o fazia com ótima finalidade: cumprir como mulher os meus deveres neste mundo de sofrimentos. Aquele a quem escolhi para esposo expus meu ponto de vista sobre a Doutrina pedindo-lhe que nunca me proibisse de cumprir meus deveres espirituais, pois de esposa eu saberia bem desempenhar. Fiz-lhe ver mesmo que eu só me casaria nestas condições. Meu futuro esposo concordou e disse-me que jamais me proibiria de dar expansão à alma.
Cedo, bem cedo, todavia vi que era mera mentira, astúcia para encobrir o que lhe ia na alma. Mas deixemos este ponto para descrevermos o que foi resolvido por meu irmão quando constatou que eu construí um lar e sair de junto de meu convívio com a sua abnegada esposa, esta alma simples, mas que o seguia em todos os seus passos.
Nosso correspondente entrava na fase em que necessário se fazia sua transformação e filiado, pois a influência já era grande e grande e o número de companheiros assim o permitia. Em vista disso, Jacob resolveu ir ao Rio entrar em contato como Presidente da casa chefe e embarcou no 05 de dezembro de 1938, sendo seu objetivo principal observar de perto os trabalhos da Casa Chefe, para poder regressar fortificado e bem orientado para fundar o Filiado. Assim, foi ele, passando um mês no Rio de Janeiro, sozinho entre aqueles que poderiam orientá-lo. Voltou realmente animado, e tempos depois concretizava nosso ideal.
Em sua ausência fiquei eu presidindo as sessões de limpeza psíquica, pois ainda não era médium desenvolvido. E, foi por essa ocasião em que se efetuou meu casamento, exatamente no dia 10 de dezembro de 1938. Foi na condição de casada que Jacob me encontrou em seu regresso do Rio de Janeiro. Vinha ele com seu ideal firmado e bem orientado, confiante em sua companheira que era eu. Sim, eu que o tinha levado aquele ponto, eu que vibrava com ele, eu quem ele mais confiava para ajudá-lo na luta das lutas. Que aconteceu? Fui arrancada de seu lado bruscamente, por aquele que me havia mentido dizendo que jamais me afastaria da Doutrina. Pois nem se passavam 3 meses, enciumado, exigia ele que abandonasse a Doutrina ou “ele iria farrear enquanto eu fosse para o Centro Redentor. ”
Diante desta atitude eu procurei escrever para o Senhor Antônio Cottas e lhe expus todo o meu drama. Perguntei-lhe que deveria eu fazer para suavizar meu ambiente. Ele respondeu-me como um pai amantíssimo: “Cumpra o seu dever no lar e afaste-se materialmente do Centro para que não possa ser causadora do desmoronamento do lar que bem-intencionada organizou. O espirito ele não poderá jamais aprisionar, por isso esteja com seu abnegado irmão espiritualmente para juntos levarem avante o ideal de vossas almas. Foi vítima de um homem que não pode apreciar os dotes de sua alma. Mas prossiga, repito e vencerá”. E daí para as lutas foram terríveis e eu buscava alento nas orientações e leituras das obras que manuseava até as escondidas.
Voltemos agora ao encontro dos anseios desse grande batalhador, que ai está e que foi designado pelas Forças Superiores para ser o Presidente do nosso Filiado de Belém do Pará. Com o meu afastamento material teve ele grandes preocupações, pensando constantemente no sucedido. Mas nunca deixamos de nos animar mutualmente, muitos eram os que apareciam, mas poucos os que ficavam.
Foi por essa época que Jacob se mudou com família para a Trav. Castelo Branco, para mais perto estar do Centro, que funcionava na sala da frente. Sua preocupação seguinte passou a ser o de comprar um terreno onde pudesse construir em definitivo o Filiado de Belém o Pará, o que, depois de muitas lutas, conseguiu. O filiado é este onde hoje todos nós nos reunimos e nos sentimos felicíssimos pelo grande patrimônio que o Centro Redentor possui no Pará.
Lembro-me bem foi no dia 28 de agosto de 1948, após comprado o terreno, o início da limpeza desse mesmo terreno. Dando vasão ao seu desejo, Jacob contratou imediatamente operários para dar início das obras de forma a que pudéssemos ter o mais breve possível uma Escola de Verdade com sua sede própria.
Apesar de todas estas providências, meu irmão não sossegava, pois daí para diante passou a assistir hora por hora o progresso da obra incentivando os operários e mestres. Tanto era o seu entusiasmo que até o almoço dos operários era ele quem providenciava, de forma a não vê-los afastados do trabalho. Eu lá também estava quando podia e nessas ocasiões sentia a mesma alegria de ver crescer dia a dia o prédio onde as Forças Superiores poderiam difundir a verdade.
Até que pudemos ver junto, este monumento pronto, concluída esta Escola onde vimos aprender a sofrer e lutar e vencer. Então quando tudo estava pronto para que se inaugurasse quanto antes, comunicamos a Casa Chefe, para que esta fizesse presente através de seus instrumentos. E como o Sr. Antônio do Nascimento Cotas, presidente, se encontrava na Europa, não podendo assim comparecer pessoalmente, enviou dois companheiros dedicados, que foram o Dr. Joaquim Cotas e o Sr. Elídio Esteves.
Sentimos então, na feliz manhã de 21 de maio de 1950, a alegria de ver nossa casa inaugurada para se oferecer à humanidade que sofre, mais esta Escola de alto psiquismo, dirigida, como tinha que ser, por meu irmão Jacob dos Santos Pinto.
Enquanto isto, eu, por não ter encontrado uma criatura com a mesma afinidade espiritual, via o meu lar desmoronar-se. Diante de tanta luta e sofrimento, resolvi viajar para Portugal e lá poder refazer-me moral e materialmente, para voltar forte de corpo e continuar a luta.
Foi depois da inauguração desta sublime escola, que embarquei, pois antes não poderia tê-lo feito. Sabendo que meu dedicado irmão e abnegado Presidente, levaria avante o seu ideal, que também era o meu, embarquei então no dia 26 de julho de 1950, com o objetivo de refazer física e moralmente, e iria tranquila pois sabia que Jacob já contava com alguns companheiros de boa vontade e era comprovada a capacidade moral e espiritual de meu irmão pelas Forças Superiores.
Em Portugal passei 15 meses, tendo a ventura de conhecer pessoalmente o Presidente da Casa Chefe e sua digníssima família, que também visitavam a Europa, revendo aquele velho país. Ali tive um dos meus sonhos satisfeitos, pois era grande o meu desejo de conhecer os verdadeiros racionalistas e com eles conviver.
Ao chegar em Portugal, desembarquei em Lisboa, não sabendo que ali, encontravam-se Antônio e Maria Cottas e seus filhos, os quais estavam hospedados em um hotel da Avenida da Liberdade.
Não demorei em Lisboa porque tinha ansiedade de conhecer, o quanto antes o Filiado do Porto. Com este pensamento foi que embarquei para aquela cidade portuguesa, antes de conhecer o Senhor Cottas, tive a alegria de conhecer aquele que era o Presidente do Filiado Portuense, e com ele expandir a alma que disto chegava ansiosa porque sofria muito.
Foi com aquela alegria que caracteriza a alma de um verdadeiro esclarecido que aquele abnegado conversou comigo, oportunidade em que de pronto, sentimos grande afinidade espiritual. De imediato também senti a grandeza de sua alma, sua dedicação à Doutrina.
No Porto, assisti diversas sessões presididas por ele. Naquelas ocasiões, minha alma produziu muito, mas muito mesmo, como nunca produzira em nosso Filiado de Belém do Pará, por falta de corrente. Chegou esse amigo de grande alma a dizer-me “Nunca presidi uma sessão em que vibrasse como essa. Desejaria, querida dona Etelvina, que ficasse a trabalhar ao nosso lado. Desculpe-me companheira, chego a ser egoísta – continuou – pois sei que é muito necessária no Filiado de Belém, ao lado de seu irmão, como médium que é, de grande valor Espiritual”.
Que alma lutadora, meus amigos, esta de quem me refiro: Essa alma que é hoje nosso Presidente Astral.
Assim, depois de oito dias que passei em contato com Diamantino Correa dos Reis e outros abnegados companheiros do Filiado do Porto, como o nosso Antônio Pinto Monteiro que hoje já faz parte da Plêiade do Astral Superior; Dr. Madeira Pena e muitos outros dedicados ao Racionalismo Cristão Portuense.
Daquela cidade estendi minha estada em terras lusas, indo fazer uma estação de águas em Vidago. Lá tive cartas do Sr. Antônio Cottas, na qual me dizia que o Sr. Diamantino Correa Reis lhe havia feito bela descrição de meu desempenho de médium no Filiado do Porto. Depois de acusar e agradecer uma lembrança de Jacob havia remetido, finaliza dizendo-me que desejava conhecer-me pessoalmente.
Assim, depois que terminei os 15 dias de termas em Vidago, tornei a Lisboa unicamente com o fito de encontrar com ele e sua digna esposa. Com este simpático casal mantive conversa em seu apartamento, por um espaço de 04 horas. Que alegria senti. E como me confortaram suas palavras de verdadeiro pai espiritual, que estava a par de minha vida. Deram-me coragem e muito valor para enfrentar a luta e prosseguir sem desanimar.
Dias depois fui revê-los já no filiado do Porto, onde passavam uns dias. Assisti, então a diversas sessões presididas por ele, e nas quais minha alma continuava a produzir muito mesmo. Não é por vaidade que descrevo isto. É somente para demonstrar que onde houver ambiente, ou seja, corrente forte, os médiuns de boa vontade, produzirão como eu produzi. Eu, vivia torturada por muito sofrimento, sentia-me num ambiente em que podia expandir à vontade como desejava minha alma, esquecendo muitas vezes as misérias que nos sacodem tanto, que se não fossemos esclarecidos, não venceríamos.
Assim, meus companheiros, eu descrevia ao nosso Presidente e irmão, animando-o cada vez mais e lhe descrevia todo o meu contentamento em estar em contato como Senhor Cottas e o querido Diamantino Corrêa dos Reis, para que ele sentisse as vibrações de minha alma a animá-lo como companheiro. E sabia que minhas palavras lhe davam ainda mais coragem para lutar, lutar sempre, como sempre soube fazer.
Como podeis avaliar, tem sido árdua e bem forte a minha luta. Mas tudo tenho vencido, com grande coragem. Tudo devo ao Racionalismo Cristão, onde aprendi a enfrentar a luta como todos os que dispuseram a fazê-lo.
Quando faziam sete meses da minha ausência de Belém do Pará, nosso Presidente Jacob dos Santos Pinto, precisando também de um repouso, deixou na Presidência nosso companheiro, Firmino Augusto Fraga, que nos vinha acompanhando a algum tempo. Meu irmão resolvera ir ao meu encontro, levando em sua companhia sua digna esposa, para também refazerem-se um pouco das grandes, lutas desta vida.
Nesta ocasião, eu ainda não sabia que se encontrava fechado, por ordem superior (injusta, já se vê) o Filiado do Porto. Injusta porque aqueles que dominam com seu poderio, principalmente o Clero que predomina muito naquele pais, tudo fez para que se privasse da verdade as almas portuguesas ansiosas de luz. Quando fui ao encontro de meu irmão e de sua digna esposa em Lisboa, tudo fizemos para estar no Porto nesta noite, a fim de assistirmos a três a sessão do Centro Redentor daquela cidade Portuguesa. Todavia, chegamos atrasados, já por volta de 20:30, dada as grandes dificuldades que encontramos, mas ficamos sentados num banco do belo jardim do “Campo 24 de Agosto”, fronteiriço ao qual se localiza o Filiado Racionalista Portuense.
Foi com certa ânsia que esperamos que chegasse as 21:00 para que pudéssemos cumprimentar o Presidente e demais companheiros. Mas que tristeza sentimos nós, quando deu 21:00 e os portões do centro continuavam fechados. Havia somente o silencio dominando o ambiente. (Que significava tudo aquilo? Perguntamos nós.)
Como junto morasse um dos diretores, bati na sua casa e quando esse companheiro apareceu, apresentei-lhe meu irmão e sua esposa, perguntando-lhe o que tinha havido. Olhou-nos e retrucou: “Então a Senhora não sabia que nosso Filiado teve ordem de cerrar suas portas? E isso já há oito dias? Fomos obrigados assim a suspender as sessões, privando-se o povo de dar expansão à alma. ”
Ficamos tristes, e ao mesmo tempo abismados com o acontecimento. Esse amável companheiro levou-nos até a residência do companheiro Diamantino Correa dos Reis e depois de cumprimentar com grande alegria meu irmão e sua esposa, contou-nos com grande tristeza o que acontecera. Diamantino, essa grande alma, chorou de tristeza, por se ver privado de sua tribuna, de não poder esclarecer os ansiosos de luz de conforto espiritual, como vinha fazendo há vários anos, pois era um dos maiores doutrinadores que já conheci.
Lembro-me agora que Diamantino manifestou grande desejo de trabalhar ao nosso lado. Mas dizia ao mesmo tempo: “Não é possível, bem sei, porque a distância é grande a nos separar. Mas estarei em espírito a lutar com meus amigos, pois não se aprisiona e assim estarei junto confortando minha alma com outras já minhas amigas”.
Continua na próxima semana….
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